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Plataforma pronta ou software próprio? O dilema que define o futuro do seu e-commerce

À medida que o negócio cresce, a complexidade aparece em camadas. Primeiro vem a necessidade de organizar melhor o inventário, criar SKUs, lidar com variações de tamanho, cor e voltagem. Depois surge a demanda por um sistema mais robusto de gestão de pedidos. Em seguida, entram as integrações com meios de pagamento, gateways diferentes e antifraudes variados. O carrinho que antes servia para um produto passa a precisar suportar compras múltiplas, regras de frete mais elaboradas, cupons, promoções. Logo aparece a necessidade de permitir que o consumidor use dois cartões no mesmo pedido para somar limites. Cada uma dessas etapas exige mais código, mais tempo de desenvolvimento, mais manutenção.

O custo real do software proprietário não está no primeiro mês nem no primeiro ano. Ele surge com a rotina. A equipe técnica passa a operar em modo de sobrevivência, corrigindo remendos, sustentando puxadinhos feitos ao longo do caminho, tentando evitar que algo quebre. O foco deixa de ser evolução e passa a ser contenção. A tecnologia, que deveria impulsionar o crescimento, vira um gargalo silencioso. O empreendedor continua acreditando que economizou ao evitar uma plataforma pronta, mas paga a conta na forma de lentidão, dificuldade de adaptação e energia desviada do que realmente diferencia o negócio.

Plataformas prontas existem justamente porque milhares de empresas enfrentam desafios muito parecidos. Controle de estoque, gestão de pedidos, integração com pagamentos, antifraude, logística, tudo isso é comum na maior parte das operações de comércio eletrônico. Fornecedores que atendem centenas ou milhares de clientes conseguem diluir o custo de desenvolvimento nessa base ampla. Eles mantêm equipes grandes dedicadas exclusivamente à evolução do produto. Cada melhoria feita para um cliente passa a beneficiar todos os outros. Assim, recursos que seriam caros ou inviáveis para uma única empresa tornam-se acessíveis em escala.

Nesse modelo, a evolução deixa de ser um peso individual. Ela vira um processo contínuo e coletivo. O lojista passa a concentrar seu esforço em produto, marca, experiência, relacionamento, enquanto a infraestrutura acompanha o mercado quase em tempo real. É por isso que, em atividades altamente padronizadas, como o e-commerce tradicional, a plataforma pronta costuma ser a escolha mais eficiente do ponto de vista econômico e estratégico.

Isso não significa que desenvolver algo próprio seja sempre um erro. Existem modelos de negócio que não se repetem em milhares de operações. Uma tiqueteira precisa lidar com seleção de assentos, regiões de estádio, preços diferentes por setor, meia-entrada, regras específicas por evento, promoções ligadas a bancos ou bandeiras. Aplicativos de mobilidade, delivery ou contratação de serviços resolvem dores muito particulares, em nichos com poucos players. Nesses cenários, a tecnologia é parte central da proposta de valor. Ela não apenas sustenta o negócio, ela é o negócio. Faz sentido que seja desenhada sob medida para resolver problemas únicos.

Entre esses dois extremos, existe ainda o caminho híbrido. Em muitos mercados, parte das dores é comum à indústria, enquanto a outra parte é estratégica e diferenciadora. Usar uma plataforma pronta para aquilo que é padrão e investir em desenvolvimento próprio onde há inovação real pode ser a combinação mais inteligente. O importante é que o cliente final enxergue uma experiência única e integrada, sem perceber que, por trás, existem sistemas distintos conversando entre si.

Essa escolha define se a tecnologia será um alicerce invisível que evolui junto com o mercado ou um projeto permanente, sempre inacabado, consumindo energia que poderia estar sendo usada para fazer o negócio crescer. Entender onde sua empresa é igual à maioria e onde ela precisa ser diferente é o que separa uma decisão pragmática de uma aposta baseada apenas na ilusão de controle.

Alex Tabor
Alex Tabor
Alexander Tabor é CEO e co-fundador da Tuna, empresa de orquestração de pagamentos que nasceu da necessidade de processar pagamentos online de forma personalizável e com a melhor eficiência possível no mercado brasileiro. Em 2010, fundou o Peixe Urbano onde atuou, inicialmente, como CTO e depois como CEO, quando a companhia foi adquirida pela gigante chinesa Baidu e depois fez fusão com o Groupon Latam. Antes de fundar a Tuna, o executivo também co-fundou e foi CTO da healthtech Alice.
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